feliz aniversário
i wish love could do it all
i wish my love could save it all —
eu tinha 9 anos quando meu avô morreu
por algum motivo eu pensei que, se a partir dali, eu fosse uma boa menina, nada mais de ruim aconteceria
então
eu
que já citava todas as pessoas que eu conhecia nas preces antes de dormir
—sem poder esquecer de ninguém e castigá-lo à morte—
amei.
amei tão forte e tão fundo e tão intenso que nada de mal
ou de morte
poderia acontecer de novo.
—
quando eu
tinha 12 anos minha avó morreu mas
antes de morrer ela esteve internada
70% do cérebro foi tomado por sangue
não há o que fazer
foi o que ouvi
minha mãe ou
meu pai
dizer no telefone
então eu
pensei:
se eu for uma boa menina, ela não vai
morrer
alguns dias depois
ela morreu.
foram 3 anos amando em vão.
talvez tanto eu
quanto deus
soubéssemos que
eu não era capaz de ser
boa
mas
eu segui
amando
—
anos depois eu amei ainda mais
amei além de mim e além da minha família
&de todas as pessoas que eu conhecia que
precisavam ser
citadas
&lembradas para não morrer
em vão
amei tanto que pensei que o amor era o bastante
mas amor não é
amor não
enche panelas amor não
muda as pessoas amor não diminui a violência amor não abafa os gritos amor não destrói lembranças amor não quebra ossos amor não arranha amor não cessa a dor amor não alimenta amor não mata
a sede amor não
diminui
amor não se comporta amor não grita amor não bate portas amor não respeita amor não silencia amor não salva amor não muda amor não obedece amor não mata amor não salva amor não escuta amor não resolve amor não compactua amor não fere amor não foge amor não mente amor não
ainda sim
eu
amo.
—
a morte de um amor é também a morte de um ente
de uma língua
de um mundo que só existia ali
entre os meus
lábios
um livro natimorto um livro abortado um livro perdido
uma ideia que
de tão boa
escapou
um sonho que aconteceu durante uma noite inteira mas
pela manhã
se perdeu
—
morre o amor?
se sim, onde se enterra se queima em que locais posso jogar essas
cinzas
aonde posso me livrar de
você
para onde vai o amor quando ele acaba?
para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa?
pode acabar um amor?
acaba um amor como quando acaba-se
um livro? mas como,
se livros acabam em
abraços e aqui é só um
vazio
um livro então talvez não seja um parto mas talvez seja um
enterro ou uma plantação
de palavras
palavras arriscas palavras riscadas palavras arriscadas palavras medonhas palavras que não
nascem
palavras que sufocam palavras que
amam
palavras que vazam que escapam que escorrem pelos meus olhos pelo meu rosto pelo meu
peito
palavras que molham
—
ridding you is like ridding
a poem
você lê meus osssos como braille
você chora e me pergunta pra onde foi o meu amor
se ontem ele estava aqui como hoje eu
quero ir
—
e fui.
para F., WYKYK.


belíssimo, ana! sem fôlego, sem dó, sem palavras.
Que lindo, lindo, lindo