bucólica
da mesa consigo escutar alguém ensaiando um choro enquanto o sol do final da tarde invade metade do quarto. um choro de samba, não de tristeza, contrariando bebel gilberto. mais tarde, olho pela janela e alguns andares para cima outra pessoa ensaia castanholas. baixinho, escuto uma música tocando em algum outro apartamento que não consigo identificar.
as janelas estão sempre abertas e gosto mesmo é de fumar o último dos três cigarros do dia enquanto observo uma das maiores avenidas da américa latina vazia. depois das dez o barulho dos carros é quase inexistente; de manhã, meu despertador alterna entre o barulho dos pássaros ou de alguma moto acelerando.
da mesma janela há também uma árvore gigantesca, com mais de cem anos. eu e ela resistimos.
antes de sair, deixo os vidros da janela quase se encostando, abertos apenas o bastante para deixar o ar entrar enquanto ainda protege o quarto de alguma chuva súbita. a cidade e o céu são sempre imprevisíveis.
as luzes estão sempre baixas e aviso o gato se demoro a voltar. olho da porta para ele, para a janela, para as luzes da cidade e sinto saudade do que ainda nem me despedi. sei que dentro de alguns dias vou sentir falta do presente e de um tanto de passado. consigo encarar despedidas com saudade. triste mesmo é quando só existe alívio no partir.
janelas sempre me foram caras. da rua gosto de contar os andares até encontrar a minha conversando com a cidade. gosto de olhar cada uma das outras tantas janelas que vejo todos os dias e pensar o que elas escondem ou exibem por de trás das luzes: brancas, amarelas, baixas, nulas. gosto de como o céu todo dia exibe cores diferentes e se mistura com as luzes
de dentro.
gosto da nudez.
minha e de outros,
de pensar na minha invisibilidade na metrópole assim como gosto da possibilidade de que essa mesma invisibilidade não seja tão invisível assim.
o pulmão pode parecer apertado ou solto, a depender da condição.
a mesma coisa acontece com casas: quando cheias, apertam o peito não importa quanto ar por ali circule.
desenvolvemos eu e o gato uma língua só nossa. quando algo o incomoda, ele vai dormir no chão. se está feliz, dorme junto do meu travesseiro enquanto faço carinho nas suas pernas. neutro, fica no pé da cama. lembro de todas as noites que não dormimos juntos por imposição alheia e sinto falta do que não vivi. se não está próximo, passo os pés pelo lençol procurando por seu corpinho que não desperta, mas mostra um certo relaxamento quando encontra um pedaço de mim. assim como a árvore, nós dois estamos aqui.
os lençóis são novos. não há outra história escrita neles que não sejam a nossa.
vou sumindo pela cidade uma hora aqui outra ali. os rastros e contos só acontecem quando desejo.
resisto:
nem árvore nem raiz.
talvez o vento se assemelhe mais.



feliz vida nova, minha amiga! sempre um prazer te ler 💘