vão se os anéis, ficam os dedos.
essa frase me leva diretamente para as mãos da minha avó, que usa um anel dourado de serpente desde sempre.
por vezes, me pego dizendo o contrário:
vão se os dedos, ficam os anéis.
às vezes é isso mesmo: perdemos partes de nós, ficam os anéis que acompanham nossos caminhos.
existe uma anedota sobre um jornalista ou escritor chileno sequestrado pelo regime militar. cortam-lhe as mãos e ele diz, rindo: não escrevo com as mãos.
tenho pensado muito sobre isso.
não escrevo com as mãos, não falo com a boca, não penso com o cérebro, não sinto com a pele.
dia desses aprendi que o verbo ouvir, em italiano, é sentir.
o sentir e o silêncio são uma linguagem por si só: o cavalo que pula do estábulo e foge pela praia. nunca mais se houve falhar. a tia que vai embora e ninguém nunca mais sabe de nada. a mulher que fugiu com o circo. lila cerullo que antes de partir faz questão de cortar o rosto de todas as fotos para que nem isso fique para trás. não é sobre perder a identidade, mas sobre levar consigo o que ninguém pode roubar.
vão se os dedos, o rosto, as mãos, pedaços de si. nascem novos órgãos, talvez não iguais ou nos lugares certos, mas nascem. enquanto há vida, há nascimento.
uma salamandra mexicana tem uma feição frágil mas é capaz de regenerar medula, mandíbula e a até partes do cérebro. um braço cortado de uma estrela do mar pode regenerar um corpo inteiro, o que também quer dizer que
por mais que a estrela do mar tenha seu braço roubado, ela é capaz de criar toda uma nova vida enquanto o braço roubado segue apenas sendo um braço morto. não existe mais vida ali. roubam-lhe os dedos, mas os anéis seguem guiando a alma.
escrevo uma lista do que não me pode ser roubado:
minhas palavras
aquilo que acredito
o caderno de quando minha avó ainda era solteira que
mesmo que suma
tem suas palavras tatuadas
em mim
meus planos
a beleza que só meus olhos podem ver
o que só eu posso contar ou
escrever
minha voz
o pássaro azul
quando eu era criança olhava o céu e pedia para tirar fotos com o cérebro: mesmo que eu retratasse o que estava vendo, quando reveladas as fotos, as cores nunca eram as mesmas da minha cabeça.
lila não foge porque quer deixar de existir. lila arruma as malas, esvazia o guarda-roupas, recorta as fotos. deixa para trás o bairro, o que não lhe cabe mais. assim como a estrela do mar que tem o braço arrancado, cria uma nova vida a partir de si. this is the thing about the ocean. só ali existe o sal e
o silênico para criar.
mesmo quando alguém some, sobram rastros. há quem orbite esses rastros o resto da vida e quem consiga criar a partir disso.
mesmo que pisem minhas pegadas, que persigam minhas migalhas, meus rastros, o céu, o sol e o solo não são os mesmos: não se mergulha duas vezes no mesmo corpo, não se ejacula o mesmo gozo, o mesmo mar.
é possível passar uma vida inteira em busca do que foi abandonado sem chegar próximo
do céu.
e eu?
eu
não sou
asséptica.
<iframe data-testid=”embed-iframe” style=”border-radius:12px” src=”
width=”100%” height=”352” frameBorder=”0” allowfullscreen=”“ allow=”autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture” loading=”lazy”></iframe>


Você escreve com a mesma elegância que usa vestidos brancos!
muitas querem, mais NINGUÉM é ana sasso!!